terça-feira, 24 de março de 2009

Textos de Teoria Musical

ARTIGO 9
EVITANDO G.A.S. (parte II)

10.1.) Comprando seu equipamento

Quando Brett Ratner (veja mini-bio no artigo “8.) Evitando G.A.S”) cita esta história, é raro não percebermos em nós mesmos este tipo de defeito. Ele conta que recebeu uma carta de um leitor descrevendo uma noitada na Beale Street, USA, no badalado BB King's blues club. No palco estavam músicos, espremidos por toneladas de parafernálias eletrônicas, um coral completo, guitarras top-de-linha e – pasmem – até um gongo. Embora tocassem de maneira limpa, após 4 ou 5 músicas este leitor e seus amigos se encheram e foram buscar diversão em outro lugar, tal a monotonia da apresentação. Logo ao saírem, duas quadras a frente, encontraram uma pequena multidão defronte ao W.C. handy Park, de onde vinha uma música. Entrando no meio da massa, viram que se tratava de alguns negros entre 60-70 anos de idade, com alguns instrumentos daqueles baratos & desconhecidos, inclusive num estado muito ruim, plugados em amplis simples, (alguns fios e conexões deixavam as fitas à mostra...) e havia silver-tape remendando algumas peles na batera. Na verdade, o som dos instrumentos, em si, não prestava – mas isso realmente NÃO IMPORTAVA!!!! Os caras tinham um “groove” no qual você não acreditava, e a multidão se agitava a cada nova música. O leitor e seus amigos ficaram ali, até a madrugada, e foram embora junto com a massa, quando os caras resolveram parar.
A moral desta história é que a maioria dos guitarristas fica numa busca insaciável do timbre perfeito, algo como “som Stevie Ray” ou “som Hendrix” ou “som EVH”, que ele tem certeza que será a ponte entre a mediocridade musical e o pódium de guitar-hero – esquecendo-se, é claro, de estudar e praticar (isto é secundário, não é?...).
Que fique bem claro: não estou dizendo que você deve comprar seu instrumento nas Casas Bahia só porque eu disse acima que realmente não importava... mas a partir do momento que você tem à suas mãos um equipamento relativamente profissional, grande parte da responsabilidade pelo seu som está nos seus próprios dedos.
Brett relata ainda um outro exemplo. Mesmo utilizando um setup de guitarra/amplificação idêntico ao de um grande guitar player, quando é você que está tocando, o som obtido não é o daquele instrumentista, e sim, o seu próprio. Você acha que subindo ao palco, no meio de um show do Clapton, por exemplo, e largando uma escala de blues na mesma guitarra e ampli que ele estiver usando você soará como Clapton? Brettner tirou a dúvida escutando uma demo tape dele próprio, datada de 4 anos atrás. Seu equipamento atual é uma Gibson Les Paul/Dyna Comp/Tube Screamer/ 1965 Fender Deluxe Reverb (com o canal Marshall no modo “normal”). Na fita, ele usava uma Ibanez plugada num Galien Krueger 250ML. Adivinhem... Ele soava extamente igual naquela época como hoje – exceto por um pouco mais de sutileza e “finesse” adquiridos nestes 4 últimos anos. Grande descoberta: Brett toca exatamente como Brett!!!
Entretanto, a melhor maneira de descobrir seu timbre é voltando-se para sua alma. O equipamento perfeito é aquele que permite transparecer o seu toque, o seu timbre próprio, que permita sua alma falar através dele – pense numa coisa: um grande microfone somente amplifica, mas não colore nem melhora o timbre de uma voz.
Um bom músico NUNCA vai soar como “eca” tocando qualquer que seja o instrumento. Mas da mesma forma que uma Guitarra PRS de US$ 4.000 não vai transformar você num rock-star, um instrumento de péssima qualidade vai diminuir – e muito – a sua performance. Vamos, então, vacinar-nos contra GAS e reconhecer a diferença entre extravagância e investimento.

9.1.1.) Guitarra:

Para valer o investimento, primeiramente a guitarra deve ter boa entonação. Como já vimos antes (em Conhecendo o Instrumento), isto significa que ao longo do comprimento do braço, as notas tem o tom correto, sem desafinações em certas partes. Uma guitarra com entonação ruim simplesmente soa ruim, sendo horrível até para iniciantes e amadores, pois atrapalha o treinamento do que seria um instrumento “afinado” – em outras palavras, é possível que o uso prolongado de um instrumento mau entonado acostume o seu ouvido a uma afinação errada – além de espantar qualquer possível audiência...
Além disso, uma boa guitarra deve oferecer ajuste pleno na ponte e através de tensor. Isto permite que com um investimento baixo você possa submeter o instrumento a um Luthier, modificando consideravelmente sua qualidade e tocabilidade.
Note também: trastes de material ruim, gastos, mal fixados ou irregulares (deite a guitarra e, colocando-a à altura de seus olhos, observe o braço como se fosse um trilho de trem: observe se os trastes são paralelos e têm a mesma altura) proporcionam uma entonação ruim e trastejamento – vale a pena pagar para ajustar este tipo de problema.
No tocante à afinação, a guitarra deve manter a afinação. Nada é mais chato do que assistir à uma apresentação onde o guitarrista tem que afinar o instrumento a cada música – além do que, normalmente ao final da música, a desafinação acaba com seu som. Problemas de desafinação constante provém normalmente de 2 fatores: pestana ou tarrachas.
Se a pestana for de plástico ou osso, pague para um técnico ajustar os cortes na medida correta. Lubrificá-la é outra alternativa. Trocar por uma de grafite ou circular podem ser alternativas – consulte um luthier.
Tarrachas de boa qualidade também não são caras, e a troca é muito simples, se feita por um profissional. Kits da Grover, Sperzel ou até Gotoh (que contam com sistema de “lock”) são ótimas opções.
Os pick-ups (captadores) não devem chiar demais. Caps baratos normalmente chiam demasiadamente – além de terem timbre pobre e fraco. Não devem proporcionar microfonia em excesso – especialmente quando ligados a equipamentos de distorção. Isto ocorre porque os fios do enrolamento das bobinas vibram uns contra os outros – típico de caps baratos, que tem blindagem inapropriada. Você tem 2 possibilidades: uma delas é mergulhar os caps em parafina derretida, o que diminui a vibração – mas não corrige o timbre; a outra, é investir um bocado e instalar pick-ups de boa qualidade.
Se a segunda opção é a sua, lembre-se: o valor do investimento em pick-ups de boa qualidade – como Fender, Gibson, PRS, DiMarzio, Seymour/Duncan (visite os sites destes fabricantes e confira – em inglês – as características de cada um) é altíssimo. Considere ao comprar uma guitarra se valerá a pena fazer a alteração – recomendada somente se a guitarra for realmente boa, ou se ao vendê-la, você recolocar os antigos caps e guardar os de boa qualidade para sua próxima aquisição.
Verifique também os controles: se ao girá-los você ouvir ruídos ou eles não modificarem o som da guitarra ao serem girados, é melhor trocá-los. O investimento é barato e vale muito a pena. Normalmente, os problemas são causados por potenciômetros velhos e/ou zenabrados.
O jack de saída deve proporcionar um encaixe perfeito com o plug do cabo – o conserto deste problema também é barato.
Sabendo destes detalhes básicos, vamos partir para o estilo. É muito difícil comprar o primeiro instrumento, porque não sabemos como estaremos tocando em um ou dois anos. E mesmo para o amador que já toca razoavelmente, definir o estilo as vezes é um problema. Músicos experientes afirmam que um setup básico para novatos, intermediários e experts pode ser o mesmo – independentemente de estilo.
O que tentamos aqui é fazer entender que para iniciar em guitarra o custo não é caríssimo, mas também não é barato. É impossível recomendar “compre porcaria, você só está começando...” porque o som vai desanimar, a tocabilidade do instrumento vai dificultar e, na troca por outro, o valor de venda será irrisório – o que levará a um investimento secundário muito grande (GAS!!!!!!!). Pense em quanto custa um piano – uma guitarra e um ampli são bem mais em conta... mas US$ 500 pode ser um ponto médio para começarmos.
Uma outra referência: o que o virtuoso em jazz Mike Stern, o country Vince Gill, o deus do rock Keith Richards, o blues-man Albert Collins e o trovador moderno Jakob Dylan tem em comum? Todos tocam numa Fender Telecaster! A primeira guitarra de corpo sólido do mundo ainda é tida por muitos como a melhor. Com todas as lojas existentes hoje em dia, com a própria fábrica produzindo uma 2.ª linha mais em conta, com todo o comércio de usadas que existe atualmente, com todas as cópias de ótima qualidade... é impossível encontrar uma opção de guitarra profissional com um custo menor. Vejamos porque:
Ponte fixa: para o iniciante, ela é mais fácil de afinar; para o profissional, se uma corda quebrar durante o percurso, você pode continuar tocando... Além disso, a ponte fixa proporciona um sustain natural muito maior que as pontes flutuantes.
Bolt-on-neck (braço aparafusado): para o músico iniciante, que não aprendeu a diferença entre a guitarra e uma espada samurai, este tipo de construção é, em caso de quebra, o mais fácil e mais barato para arrumar. Para o profissional que PRECISA atuar em palco utilizando a guita como uma espada samurai, a mesma observação é válida.
Versatilidade: Fora da case, não existe nada mais camaleonino que uma Tele: country, blues ou rock'n'roll. Quer tocar jazz? instale um humbucking no braço. Quer tocar heavy rock? Instale um humbucking na ponte. Acha que uma Tele não tem som pesado? Dê um tempo... a lenda conta que a maioria dos riffs estoura-tímpano de Jimmy Page – Led Zep foram tocados numa Tele.
Sempre na moda: as Tele nunca saem de moda – seu design limpo é “cool” e meio diferenciado, ao contrário das Strato, que parece todos terem uma (inclusive Brett e eu mesmo...). Você será lembrado por seu visual diferente.
Ascessibilidade: modelos usados podem ser encontrados entre US$ 200 – US$ 500 (comprar via Internet, para nós, aqui no Brasil, é inviável: o frete sai em torno de US$ 275 – para qualquer guitarra – além dos impostos). As novas saem por algo em torno de US$ 650. As cópias para se ficar de olho são as da própria fábrica, Fender Squier, e as produzidas por ESP, Hammer, G&L, Fernandes, Schecter e Samick. Algumas, inclusive, oferecem mais recursos e/ou peças de melhor qualidade que as originais, custando menos por não ostentarem o logo Fender. Mas cuidado com cópias baratas. Elas utilizam madeira ruim, construção e acabamento pobres, além de hardware e elétrica de péssima qualidade.
Analisando tudo o que vimos acima, você pode começar a modificar alguns ítens. Por exemplo, se você prefere outro design ou acessórios, é uma questão de gosto.
Eu vou dar um exemplo: sou apaixonado pelas PRS de Carlos Santana ou pelas Ibanez de Joe Satriani – cópias são caríssimas e difíceis de encontrar, e as verdadeiras... bem, sou um mero mortal! Gostoso mesmo é ouvir elogios feitos à minha guitarra, uma Vantage VIE-216, ano 1997, produzida pela Samick na Coréia – outro dia, com um amigos, deixei o proprietário de uma Gibson LP Studio com vergonha ao plugar minha “vermelhinha” – modéstia à parte, ela “papou” a Gibson com méritos. Se trata de uma Strato inspirada nas Jackson (sem escudo e com headstock angulado). Custou US$ 200, nova em folha. O visual é bonito – parece realmente uma Jackson. Quando pluguei a guitarra na loja, o vendedor me perguntou: “gostou do som?” e eu respondi “é uma droga...vou levar!”. Ele ficou meio abestalhado. Outro dia, voltei à mesma loja para comprar um distortion-box. Quando pluguei a guitarra, o mesmo vendedor não acreditou novamente – “é a mesma guitarra?” – e era. Vou explicar...
Quando fui comprá-la, verifiquei construção, junção de braço/corpo, instalação de hardware, tarrachas, madeira utilizada, isolamento da elétrica, material da escala, posicionamento de trastes, entonação. Brilho e sustain, com a guitarra desligada. Barulhos e chiados na elétrica, com o instrumento plugado. Prós e contras, valia a pena.
Saí da loja e deixei a bichinha em meu Luthier – ele concordou comigo em tudo. A guitarra tem corpo construído tipo laminado; segundo a fábrica, uma “capa” de ash sobre corpo em mahogany – o que porporciona pouco peso e um som mais brilhante que o mahogany usado sozinho. O braço é em ash, com escala em rosewood tingido (visual falso, mas de efeito visual bonito e propriedades confiáveis), equipado com tensor simples. Trastes de alpaca medium-jumbo (um tesão para dar bends), colocados com perfeição (algumas rebarbas nas bordas – que foram limadas e corrigidas – e um deles foi levemente levantado), tarraxas moles demais (substituidas por um jogo Gotoh – US$ 28), ponte móvel tipo Strato vintage KKT (em metal preto, bonitas e confiáveis – a instalação original vem com as 5 molas – com 3 funciona de maneira mais sutil e confortável). As cordas originais estavam semi-oxidadas, e eram 0.13. Troquei-as por GHS Super-Boomer 0.09 (como as Ibanez, de fábrica). A ação foi abaixada, entonação verificada. A pestana plástica foi trocada por uma de grafite (e lubrificada).
Desligada, a guitarra já era outra – tocabilidade e sonoridade mudaram da água para o vinho. Mas ligada continuava um desastre – muito chiado e nenhuma personalidade. Aí vem a parte boa. A guitarra tinha 3 potenciômetros: 1 de volume geral, 1 de timbre para o single do braço e do meio, e 1 de timbre para o HB da ponte. Os controles de timbre tinham funcionamento duvidoso e inútil. Os pick-ups eram de baixa qualidade – 2 singles de timbre fraco e magro, e um HB que gritava esganiçado sem distorção e apitava, literalmente, ligado a um dirty-box – tudo era coreano.
Solução: os potenciômetros, embora a guitarra fosse nova, estavam oxidados – trocá-los custou uma ninharia (R$ 15,00 por dois). Aliás, só comprei dois porque meu luthier sugeriu um volume master e um timbre master, somente. Tudo bem, mas e o buraco do outro botão? Utilizamos esse buraco com muita sabedoria para instalar uma mini-chave de defasagem para o HB, podendo usá-lo como single. Já que a guitarra contava com uma chave 5 posições tipo Strato, ganhamos mais 2 timbres. Vejam as possibilidades: braço; braço/meio; meio; meio/HB ponte; meio/single ponte; ponte single; ponte HB. Uma guitarra, 7 timbres – ou melhor, 7 possibilidades de timbre, porque com os pick-ups originais o timbre era um só em qualquer posição da chave: PÉSSIMO.
Os pick-ups que escolhi são uma mistura maluca para alguns, mas como não toco um só estilo musical, preferi fazer uma “salada de frutas”, pois meu objetivo era montar uma guitarra que me proporcionasse a maior variedade sonora possivel, com muita qualidade.
No lugar do HB da ponte, foi instalado um DiMarzio Tone Zone (similar ao Fred, mas com maior gama de médios e melhor feedback) – este pick-up foi defasado (através da chave que citei acima). Assim, posso usá-lo como HB ou como single, sem perder a qualidade DiMarzio (Ace Freley concorda comigo...). Preço: US$ 150.
No meio, arrematei por uma bagatela um single original das Ibanez RG570 – o S1 – fabricado pela própria Ibanez, é utilizado pela fábrica nesta mesma posição; é competente na transmissão de médios – e uma ótima opção para ser usado conjugado com os pick-ups da ponte e do braço. Preço-usado: US$20 (um achado!).
No braço, para curtir um som bem “blueseiro”, fui ao exagero de encomendar um Fender Gold Lace Sensor, o mesmo usado nas Fender Strato signature de Clapton e Beck. O som é maravilhoso, e o preço, rasoável. US$ 120.
O resultado final: como eu disse acima, um instrumento que fala ao ser plugado. Quer calcular o preço final comigo? US$ 525,50 + mão-de-obra do luthier = US$ 600,00. Você consegue comprar uma guitarra nova, de qualidade profissional e com possibilidades de tocar blues, pop, rock, metal, funk, punk.... tudo somente mudando uma chavinha?
O que tentei mostrar é que na maioria das vezes não vale a pena gastar US$ 750 numa Gibson, levar para casa e descobrir que o que você queria era um timbre mais gordo e doce, ou arrematar uma Fender por US$ 600 (eu estou citando as mais baratas das duas fábricas...) e querer se enforcar ao ligá-la overdrive e não conseguir aquele timbre gritador.
Aprenda a analisar o instrumento antes de comprá-lo: madeira, hardware (metais), elétrica, construção, acabamento, entonação, sonoridade (desligada e ligada). Se algo não agradar, pense se o negócio realmente vale a pena, mesmo com os custos da resolução destes problemas. No final das contas, com alguma atenção (e um pouco de sorte) você será capaz de encontrar o seu “verdadeiro amor”.

9.1.2.) Cabos

Não tente economizar em cabos. Cabos de baixa qualidade roubam o sinal da guitarra (principalmente as frequências altas). Além disso, os cabos mais baratos são mal soldados e não possuem blindagem, o que os torna fracos e propensos a ruídos. Prefira os cabos com blindagem nos plugs. Molas na saída dos plugs também são muito úteis, para evitar a quebra dos fios. Cabos com revestimento de nylon, tipo corda, são os mais resistentes, além de serem coloridos e facilmente diferenciados (porque a maioria dos baratos são de borracha preta) – na hora de sair do palco, você cata o seu e deixa o resto da banda desembaraçando aquele monte de cabo preto todo emaranhado...

9.1.3.) Cordas

Mesmo se você for POBRE, você ainda poderá ter acesso às melhores cordas do mundo por ninharia. Um jogo de cordas importado profissional, o mesmo utilizado por seu “guitar hero”, não custa mais do que US$ 8,00. Cordas novas tem melhor entonação e soam muito mais brilhantes. Investir num líquido de limpeza de cordas (geralmente antioxidantes) maximizará ainda mais o tempo de vida de suas cordas (experimente o Fast Fret, da GHS - passar com um pano sempre que terminar de tocar). De qualquer forma, trocar as cordas uma vez por mês não vai te matar – mais ainda levando-se em consideração as altas taxas de umidade relativa do ar em nosso país (Brasil), o que acelera o processo de oxidação. Ah! Esqueça aquele papo de que corda nova não mantém afinação – isto é pura lenda – cordas de qualidade afinam na 2.ª conferida e não desafinam mais.

9.1.4.) Palhetas

Elas são a maneira mais barata de mudar seu timbre – principalmente em violões. Pelo preço que custam, você pode descarregar sua GAS comprando palhetas... Você ficará surpreso com a diferença obtida com diferentes tamanhos e texturas. Fique atento somente ao tipo de material: evite as que escorregam em excesso.


9.1.5.) Pedais

A útlima cruzada nestes artigos sobre GAS é, onde mais se encontram casos desta “doença” – talvez pela infinidade que o mercado ofereça, talvez pelo preço (já que é mais fácil trocar de pedal a cada 3 meses do que trocar a guitarra ou o ampli...). Brett Ratner define pedais como “hospedeiros” de GAS: eles são baratos, divertidos, duráveis, fáceis de usar, atrativos e ...coloridos! (e somos todos eternas crianças, não?).
Além disso, é simples mudar o estilo de música sem trocar a guitarra – use pedais!

Country: compressor --> volume --> delay
Blues: overdrive
Jazz: chorus
Rock classic '60: wah --> fuzz
Funk '70: wah --> phaser/flanger
Rock '80: compression --> distortion --> chorus
Trash: wah --> heavy distortion
Grunge: qualquer pedal de distorção “flatulenta”...

Essas regras básicas não precisam ser seguidas à risca; são somente sugestões baseadas em várias experiências de vários grandes músicos – e os representantes de cada gênero foram seguidos e copiados, utilizando os efeitos desta maneira.
Algumas regras existem no uso de pedais, mesmo os mais comuns, quando utilizados em conjunto. A ordem em que são ligados e o tipo de alimentação utilizado modifica demais o timbre final.
Compression sempre soa melhor antes de qualquer Distortion.
Pedais de Volume devem ser colocados sempre após Distortion, porque este último normalmente modifica o volume do sinal (que será corrigido facilmente com o Pedal colocado em seguida). Da mesma forma, o Volume nunca pode ficar depois de Delay ou Reverb, porque cortará o efeito de eco ou reverberação quando o volume for abaixado.
Um Chorus Estéreo pode ir por último, possibilitando a saída do sinal para dois amplis.
Wha-wha deve vir antes do Distortion.
Qualquer outro efeito, como Pitch Shifter, Vibrato, Flanger, Phaser... deverão vir sempre após a Distorção.
Um bom guia para eu não encher muito com isto é o “Boss Guitar Effects Guide Book”, disponível em seu store favorito (se você comprar um pedal Boss...) – ele contém dicas da fábrica sobre cada setup, especificando a pedaleira ideal para cada estilo e dando os porquês.
A fonte utilizada em cada pedal também é muito importante. Correntes ou voltagens erradas modificam o efeito conseguido, prejudicando o funcionamento do pedal. (Frusciante adora colocar baterias fracas em seu Boss Fuzz – o som fica mais “gordo”, segundo ele. O problema é a bateria acabar no meio da música...). Utilize sempre a fonte recomendada pelo fabricante. Se todos os seus pedais utilizarem corrente semelhante, procure nas music store fontes para alimentar diversos pedais simultâneamente. Elas evitam o problema da fiarada (principalmente se você usa 2 ou mais pedais...).
Inventar um case para os pedais também é uma boa – facilita a locomoção e instalação em palco, além de proporcionar segurança no transporte. Se você só usa pedais Boss, uma boa é a BCB-6 – só que ela só acomoda pedais da marca. Algumas music store no Brasil já aderiram à moda do Pedal-Bag: é uma bolsa igual as de guitarra, em formato retangular, com ziper. O fundo é de velcro, e ela vem com velcro adesivo para instalar no fundo dos pedais. Aí é só grudar tudo no fundo da Bag, deixar tudo ligadinho e pronto! Usou, fechou. Cases de plástico e alumínio também são disponíveis, com alguns encaixes reguláveis, mas são mais difíceis de encontrar – e bem mais caras. Amigos meus já partiram para o lado feito-por-mim e, com algumas caixas de maçã ou uva, um serrote, pregos e um spray preto, construíram cases de dar inveja à lendas de pedal-cases feitos de Tupperware...
Seguindo-se a teoria de que cabos e pedais diminuem o sinal gradativamente, outro compromisso ao usar-se pedais é limitar o seu número. O limite é algo em torno de 6-8 pedais, desde que sejam escolhidos pedais de by-pass real (ou seja, o sinal, quando o pedal está em off deve entrar e sair sem perda de força). Outro ítem importante é utilizar cabos de qualidade entre os pedais também.
Ao comprar um pedal, pergunte-se: eu poderia tocar com minha banda sem este pedal? Por exemplo, The Edge conseguiria tocar os antigos sons do U2 sem seu Delay? Somente assim compre o seu efeito. Outro fator inspirador é a capacidade de o efeito escutado instigar sua alma à composição ou à criação de um estilo. Às vezes, algo que você nunca escutou é muito legal ao seu ouvido, e pode ser trabalhado positivamente. De outra forma, o novo pedal somente vai fazer volume na sua case.
Finalmente, vamos exemplificar um diagrama de uma pedaleira profissional. Este esquema funcionará bem com 2 amplis simultaneamente (um tipo Fender e um tipo Marshall) ou somente um tipo Fender (utilizando 2 canais: o “normal”e o “vibrato”).
Guitarra  Wah  Channel Shifter. Isto permite três caminhos de sinal: o primeiro segue para um afinador (= tuner; afinadores matam o sinal – sempre deixe-os fora do caminho), o que deixa a guitarra muda, servindo para uma afinação em palco.
O segundo caminho é o timbre “limpo”. O sinal passa por: Compressor  Chorus  Flange/Phaser  Delay. Este sinal vai para o ampli Fender ou para o canal “vibrato” (onde pode ser adicionado reverb).
O terceiro caminho é o timbre “sujo”. O sinal passa por: Dirty Boxes (Distortion, Fuzz, Overdrive)  Booster  EQ  Pitch Shifter  Short Delay. Este sinal vai para o ampli Marshall ou para o canal normal de seu ampli.
Um pedal de volume estéreo pode ser colocado antes da distribuição para os amplis, o que vai auxiliar – e muito – o controle de Volume dos dois canais (atenção para colocá-lo ANTES de Delays e Reverbs...) Confira tudo no esquema abaixo:



Tudo o que vimos é pura exemplificação; não se esqueça de que o mais importante é que o som seja transparente, deixando que o que é produzido em sua alma passe pelo equipamento e chegue aos ouvidos da audiência da maneira que você imaginou.
Boa Sorte!

Publicado no site “A Casa das Cifras” (http://www.casa.cifras.nom.br), em 29/11/1.999

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