terça-feira, 24 de março de 2009

Textos de Teoria Musical

Este é outro artigo adaptado de Brett Ratner (confira sua mini-bio no artigo “8.) Evitando G.A.S”). Foi baseado numa entrevista com Roger Fritz, ex-luthier e chefe do departamento de reparos da Gibson – foi também proprietário da Fritz Bros. Guitars, fábrica de instrumentos “High-end” feitos artesanalmente à mão nos EUA. O assunto é madeira – isso mesmo... Conheça a particularidade de cada uma, e as características que são herdadas pelos instrumentos feitos com elas.
Com certeza, quando você for comprar seu próximo instrumento, isto o ajudará a decidir entre uma ou outra marca – principalmente se você estiver optando por uma “cópia” de boa qualidade – a menos que você seja um dos sortudos cheios da grana que compram as “top” das melhores marcas mundiais, impossíveis para o resto de nós, pobres mortais...


ARTIGO 10
MATÉRIA-PRIMA: MADEIRA

Os componentes utilizados e os procedimentos de fabricação de um instrumento musical influenciam diretamente na sua característica sonora. Desde a matéria-prima principal de sua construção – a madeira, passando pelo tipo de junção corpo/braço, formas, escala, “hardware” (partes metálicas: ponte, trastes, tarrachas...) e eletrônica (pick-ups, instalação elétrica, circuitos e conexões).
Ao comprar um instrumento, após estar devidamente “vacinado” contra GAS (leia nosso artigo...), você não precisa ser um profundo conhecedor de instrumentos musicais, mas deve saber o básico sobre cada componente e um pouco sobre construção, para poder escolher sem ser ludibriado pelo aspecto exterior – é claro que é muito legal comprar aquela guitarra com a pintura parecida com a do seu ídolo, ou aquele violão folk com “pick-guard” perolizado... mas a aparência DEVE ser deixada como útlima análise na hora da decisão.
Neste artigo, você conhecerá as principais madeiras utilizadas na construção de instrumentos de cordas; quando for optar por um instrumento, pergunte ao vendedor qual a madeira utilizada. Isto deve ser feito, sempre. Quando ele não souber, peça para se informar com o fabricante, verifique manuais ou, no caso de usados, pesquise no site do fabricante – as melhores marcas (e até as boas cópias) mantém informações precisas de modelos recentes e respondem à dúvidas sobre modelos fora-de-linha através de e-mail (a maioria em inglês...).
A opção por um instrumento mais barato pode ser fatal, às vezes, pela matéria-prima utilizada; se o problema do instrumento for a madeira, o investimento para consertá-lo será muito alto, arrasando com o negócio feito. Portanto, atente-se às dicas abaixo, e boa sorte! (vou colocar os nomes também em inglês porque é o que você vai encontrar em manuais e sites de fabricantes, OK?)

I.) Espruce (spruce): embora não tão bonita quanto Bordo (maple), é a vencedora de todos os tempos para o tampo de violões “flat top” (tampo plano). Espruce é leve e tem veio apertado. Isto faz com que a madeira, quando corretamente cortada, vibre de maneira muito semelhante a um cone de alto-falante. Melhor ainda, com o passar dos anos, a seiva escondida nos veios seca gradualmente e cristaliza-se, acentuando ainda mais o brilho e qualidade de resonância da madeira. Espruce “engleman” é a preferida para tampos de violão.
II.) Jacarandá (rosewood): esta madeira, principalmente o Jacarandá Brasileiro, tem-se tornado o padrão de qualidade máxima para traseiras e laterais de violões acústicos. Denso e de aparência maravilhosa, jacarandá proporciona um grave cheio, ótima “mordida” em tons de pico e um distinto médio “quase piano” ao timbre. Enquanto o jacarandá é obviamente perfeito também para escalas, fabricantes tem tido várias limitações para o seu uso em outras partes de guitarras elétricas de corpo sólido. As guitarras ficam muito pesadas, com timbre demasiadamente brilhante e/ou com preço proibitivo. Isto porque a madeira é rara e muito cara. Além desses problemas, a sua porosidade natural requer uma quantidade enorme de selador (e consequentemente mão-de-obra de acabamento) antes da laqueação ou pintura.

III.) Mogno (mahogany): o mogno tornou-se popular para violões pela sua beleza e por ser bem mais barato. Um exemplo? Enquanto o “top de linha” Martin D-28 tem traseira e laterais em jacarandá, seu “primo pobre”, o Martin D-18 usa mogno; de resto, são idênticos. O uso do mogno proporciona um timbre mais “sala de estar” ao violão. Em outras palavras, o som é estridente, e não brilhante. Não tem uma sonoridade “potente”, mas tem sua característica própria – que agradou, inclusive, aos Beatles, em suas primeiras gravações, quando utilizavam Gibson acústicas de construção em mogno. Indo mais longe, até as elétricas de corpo sólido, pode-se construir uma guitarra inteira somente com mogno (exceto a escala). O timbre em elétricas é marcado pelo som morno, repleto de frequências de baixas a médias.

IV.) Amieiro (alder): amieiro é o material clássico usado no corpo das Stratocaster (embora os primeiros modelos tivessem corpo em freixo). O amieiro é de fácil manuseio na fabricação, porque independe do uso de muita seladora. Tem como característica um som cheio e encorpado, mas não chega a ter a “mordida” do freixo. Segundo Fritz, o amieiro é o Chevrolet das madeiras densas (para nós no Brasil, seria o Fusca...). É também muito utilizada nas semi-acústicas.

V.) Freixo (ash): estridente, porosa e pesada seriam as palavras ideais para descrever o freixo, o ingrediente clássico do timbre Telecaster.

VI.) Bordo (maple): os principais usos desta madeira são na cosntrução de braços e como “capa” em guitarras elétricas. O bordo é extremamente denso e duro. Ao mesmo tempo que é ideal para suportar o stress da tensão das cordas como braço, é pesada e muito brilhante para servir como corpo em guitarras sólidas. As Les Paul STD usam a “capa” de bordo para dar um brilho ao som morno do corpo em mogno. A “capa” de bordo pode ser ainda trabalhada de modo a “desenhar” de maneira extraordinariamente bonita o corpo do instrumento, já que os padrões dos veios, cortados de maneira artística, ao serem preenchidos com os mais diversos processos de acabamento disponíveis são enfatizados. Vide as PRS de Carlos Santana ou as Gibson Les Paul Flamed Maple. O bordo pode ser também utilizado em fundo ou laterais de violões, mas não com tanta frequência como jacarandá ou mogno.

VII.) Ébano (ebony): quando não usado em pianos, é um ótimo material para escalas. É uma madeira extremamente forte, brilhante e durável. O ébano do Gabão, vindo somente desta província na África, é o preferido, por sua cor pura e profundamente negra. O ébano Macassar é, porém, o mais utilizado, por ser muito mais barato – mas possui veios na cor marrom. Por isso, é frequentemente “tingido” para se passar pelo outro...

VIII.) Nogueira (walnut): a nogueira é uma ótima alternativa para o mogno. É forte, tem timbre morno e é naturalmente bonita. Funciona bem em corpo de guitarras sólidas, e fundo e lateral de acústicas. Se cortado apropriadamente (perpendicular ao crescimento anual da árvore ou uma fatia abaixo do centro do tronco), é estável o bastante para ser utilizada até em construção de braços.

IX.) Cedro (cedar): o cedro é uma das poucas alternativas para substituir espruce na confecção de tampos planos em violões. Tem brilho, leveza, e a cor vermelho profundo adiciona um “look” diferenciado ao instrumento – além do quê, você nunca mais terá traças na sua case...

X.) Madeiras “alternativas”: as “madeiras alternativas” mais comuns são “purple heart”, pau-ferro, “wenge” e “bubinka”, que vem encontrando seu lugar na construção de instrumentos de corpo sólido. Estranhamente, elas tem sido usadas com maior frequência por fabricantes de baixos (que são muito mais aventureiros do que os tradicionais conterrâneos guitarreiros). Basicamente, estas madeiras são marcadas por sua força, densidade, e por sua especial utilidade quando multiplamente laminadas (combinadas) em construções do tipo neck-trough-body (braço inteiriço ao corpo). O resultado é um instrumento com incrível sustain e estabilidade. Tanto é que elas vêm ganhando espaço até em alguns modelos de fabricantes conceituados.
Além das madeiras acima, existem milhares de outros tipos que são ou foram experimentadas com qualidades e defeitos na construção de instrumentos, já que constantes experiências vêm sendo feitas neste sentido por um motivo óbvio: o suprimento de madeira mundial está cada vez mais limitado, e o uso das madeiras tradicionais, de características já conhecidas e testadas através dos anos, tem em contrapartida o elevado preço final do instrumento de qualidade.

Publicado no site “A Casa das Cifras” (http://www.casa.cifras.nom.br), em 05/11/1.999.

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