segunda-feira, 23 de março de 2009

Textos de Teoria Musical

ARTIGO 6
MAPEANDO O BRAÇO – OITAVAS E TRÍADES

Venho prometendo em meus artigos que é possível conhecer todas as notas no braço do instrumento sem decorá-las, no sentido direto da palavra. É óbvio que, sem memorização, você não vai identificar as notas – sem usar pelo menos um pouquinho da memória, não saberíamos nem mesmo o nosso próprio nome....
A base deste método é compreender como são formados os acordes através do conceito de intervalos e graus, e dominar padrões de oitavas e tríades; TUDO o que vimos até agora vai se relacionar de uma maneira simples, e você vai, sem perceber, memorizar a posição das notas. Daí a encaixar os 4 BOXES básicos de escalas – de onde sairão as maiores, menores e as pentatônicas – será um pulinho.


6.1.) Oitavas

Como vimos anteriormente, a Oitava é a nota que está distante um intervalo de 12 ½ tons da nota em questão – por coincidência, é a mesma nota, só que mais aguda ou mais grave. Novamente, voltarei a frisar: como todos os conceitos baseados em INTERVALOS, pode-se desenhar um padrão no braço do instrumento, e ele pode ser transportado para qualquer tom, somente movendo este padrão acima ou abaixo no braço. Vejamos na prática: pegue o nosso “fretboard” de alguns artigos atrás e isolemos a posição de uma única nota no braço todo – o Fá (F), por exemplo. (não se esqueça: do 12.º traste para a frente tudo se repete...):

Deste gráfico acima, podemos tirar PADRÕES de oitavas, válidos para QUALQUER nota em QUALQUER lugar do braço. Não acredita? Vamos lá:

Padrão 1 – (1) válido para 6.ª corda
e. |---|---|-8-|---|---|
B. |---|---|-
--|---|---|
D. |---|---|---|---|---|

G. |---|---|---|---|---|

A. |---|---|---|---|---|

E. |---|---|-1-|---|---|


Padrão 2 – (1) válido para 6.ª e 5.ª cordas
e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|---|---|---|

D. |---|---|---|---|---|

G. |---|---|---|-8-|---|

A. |---|---|---|---|---|

E. |---|-1-|---|---|---|


Padrão 3 – (1) válido para 4.ª e 3.ª cordas
e. |---|---|---|---|-8-|
B. |---|---|---|---|---|

D. |---|-1-|---|---|---|
G. |---|---|---|---|---|

A. |---|---|---|---|---|

E. |---|---|---|---|---|


Padrão 4 – (1) válido para 6.ª corda
e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|---|---|---|

D. |---|-8-|---|---|---|

G. |---|---|---|---|---|

A. |---|---|---|
---|---|
E. |---|---|---|---|-1-|


Padrão 5 – (1) válido para 5.ª e 4.ª cordas
e. |---|-8-|---|---|---|
B. |---|---|---|---|---|

D. |---|---|---|---|---|

G. |---|---|---|-1-|---|

A. |---|---|---|---|---|

E. |---|---|---|---|---|


Pode me xingar à vontade.... você DEVE MEMORIZAR este 5 padrões. Por quê? Lembre-se que o braço é dividido em duas partes iguais: após o 12.º traste, tudo se repete. Suponha que você saiba as notas da 6.ª corda até o 12.º traste. Se você dominar os padrões de oitavas, você será capaz de identificar TODAS as notas no braço. Realmente vale a pena...
Outra vantagem das oitavas é transportar “licks” (frases) de um lado para o outro do braço com rapidez, através da visualização dos padrões – isto é usado pra caramba por uma pá de bandas (quer um exemplo? “Still loving you” – Scorpions: os 2 licks distorcidos da introdução são o mesmo: o 2.º é tocado uma oitava acima do primeiro...)
O conceito também é válido para os baixistas: é muito comum utilizar-se oitavas como forma de “preencher” as lacunas ou ritmar uma melodia onde a mesma nota é tocada por vários compassos. Preste atenção em linhas de contrabaixo usadas em samba, pagode e surf music, por exemplo.
Treine randomicamente: escolha uma nota qualquer no braço, e tente achar pelo menos 2 oitavas desta nota. Faça isso com um monte de notas, por toda a extensão do braço – inclusive, usando as cordas soltas. Pratique bastante, e logo você estará memorizando os padrões. SOMENTE quando isto acontecer, leia o resto deste artigo... he, he, he.


6.2.) Tríades

As tríades são acordes formados por três notas, determinadas, em cada caso, por sua posição relativa a intervalos na escala, de acordo com seus graus. Não entendeu nada? Vamos traduzir com um exemplo. Tomemos a escala de Dó maior (C – de novo...):



Temos acima as notas e os graus. Isto deve ser conhecido a este ponto – caso contrário, releia os artigos anteriores. Não é necessário decorar, apenas compreendê-los.


6.2.1.) Tríades Maiores

Vamos nos basear na escala acima e extrair a tríade maior. As tríades maiores são as formadoras dos acordes maiores – logo, como vimos em Dominando Acordes, a fórmula para obtermos as tríades maiores só poderia ser: Tônica, 3.ª e 5.ª ou I, III, V.
No caso de C = C (I), E (III) e G (V). Vejamos no braço:

0 1 2 3 4
e. |---|---|---|---| = E
B. |-x-|---|---
|---| = C
G. |---|---|---|---| = G

D. |---|-x-|---|---| = E

A. |---|---|-x-|---| = C

E. |---|---|---|---| =
(normalmente não é tocada, para manter a tônica mais grave)

Temos o acorde de C (dó maior) no braço e do lado direito, as notas. Que coincidência, não?
Quer tentar outro? Vamos para o de D (ré maior):

Nossa tríade maior seria: D (I), F# (III) e A (V). Vamos conferir:

0....1...2...3...4
e. |---|-x-|---|---| = F#
B. |---|---|-x-|---| = D
G. |---|-x-|---|---| = A
D. |---|---|---|---| = D
A. |---|---|---|---| = x (muda)
E. |---|---|---|---| = x (muda)


Incrível, não???? Com apenas três notas, temos os acordes. Agora que entendemos o espírito das tríades maiores, vamos tentar PADRONIZAR GRAFICAMENTE a coisa. Vamos trabalhar, por exemplo, com um acorde que você deve costumar conhecer através da pestana: o acorde de F (Fá maior). Vamos puxar a escala:

A nossa tríade seria F – A – C. Vamos localizar no braço a posição relativa das três notas:

Perceba que a nossa “amiga” Pestana de F está assinalada nas 3 primeiras casas: na 1.ª, a pestana, para prendermos ao mesmo tempo F, C, F; na 2.ª casa o A, e na 3.ª F, C.
Retorno a um conceito importantíssimo: todo padrão baseado em intervalo pode ser transportado acima ou abaixo do braço, desde que mantenhamos os intervalos: BINGO!!!! Se você utilizar este padrão, apenas substituindo a tônica (a nota da 6.ª corda) você vai poder fazer qualquer acorde maior utilizando pestana. Veja o padrão de “pestana maior” a partir da Tônica na 6.ª corda:

e. |---|-1-|---|---|---|
B. |---|-5-|---|---|---|
G. |---|-X-|-3-|---|---|
D. |---|-X-|---|-1-|---|
A. |---|-X-|---|-5-|---|
E. |---|-1-|---|---|---|


Aliás, do padrão acima tira-se o que guitarristas chamam de “Power Chords” (ou power acordes) – que são o uso da Tônica mais a 5.ª, como I – V – I ou somente I – V. Vamos entrar nisto em um artigo isolado logo adiante. Mas voltemos à nossa tríade: para agruparmos as 3 notas (em 3 cordas adjacentes), teríamos o seguinte padrão:

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|-5-|---|---|---|
G. |---|---|-3-|---|---|
D. |---|---|---|-1-|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Mas o gráfico não evidencia somente isto; observe nas casas 5 e 6. Não conhece a “forma” desta tríade? Sim, é a forma do D (Ré maior), só que em outro lugar. Se você tocá-lo na 5.ª casa, vai obter um F. É isso mesmo, confira as notas: C – F – A. A isto chama-se inversão de acorde (porque as notas não aparecem na mesma ordem da escala), muito conhecida de pianistas – que utilizam os acordes invertidos pela disposição das notas no teclado. Este tipo de acorde é muito utilizado para acompanhar teclados – ou para substituí-los, no caso de sua banda não contar com um. Tente uma experiência: enquanto uma guitarra toca o acorde tradicional, na pestana, ligeiramente “Overdrive”, mande uma tríade numa guita limpa ou adicionada de chorus (que enfatiza mais ainda a proximidade sonora do teclado). Você está começando a diversificar sua gama de timbres.
Vamos ver o padrão:

e. |---|-3-|---|---|---|
B. |---|---|-1-|---|---|
G. |---|-5-|---|---|---|
D. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Outra “forma” velha conhecida nossa: a forma do C (dó maior). Veja nas casas 6, 7, 8. Neste caso, temos somente o I e III graus, porque no caso do C, o V grau é a corda solta (G). Mas o nosso padrão de tríade, que é o que interessa, não tem a “forma” do C. Nosso padrão é o seguinte:

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|-1-|---|---|
D. |---|-5-|---|---|---|
G. |---|---|---|-3-|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Outra tríade direta (na ordem que aparece na escala) pode ser observada nas casas 8 e 10:

e. |---|-5-|---|---|---|
B. |---|---|---|-3-|---|

G. |---|---|---|-1-|---|
D. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Mais uma, invertida, no “formato” A (Lá maior) – casa 10:

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|---|-3-|---|

G. |---|---|---|-1-|---|
D. |---|---|---|-5-|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Quer mais? Observe as casas 10 – 12:

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|---|---|---|
G. |---|-1-|---|---|---|

D. |---|-5-|---|---|---|
A. |---|---|---|-3-|---|
E. |---|---|---|---|---|


Ainda tem mais: casas 1 – 2

e. |-1-|---|---|---|---|
B. |-5-|---|---|---|---|
G. |---|-3-|---|---|---|
D. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|

E. |---|---|---|---|---|

Mas para que serve esta coisa toda? Bem, vamos à prática:
1.) Um exemplo foi dado acima: as tríades invertidas proporcionam som semelhante ao obtido por teclados – pela sua construção na mesma sequência da escala do piano. Pode-se usar para acompanhamento ou simulação deste timbre;
2.) Violonistas acústicos vão adorar tocar músicas substituindo as pestanas por tríades, por serem muito mais simples e muito menos cansativas do que elas – principalmente em transições constantes;
3.) As tríades proporcionam sequências de acordes magníficas, por manterem os tons e alterarem apenas os intervalos – (Gênesis, The Who, Dire Straits e Van Halen usam e abusam de tríades – e são “apenas” 3 notinhas...);
4.) Bandas com duas guitarras ou 1 guitarra e 1 violão podem e DEVEM utilizar acordes comuns + tríades, tríades + tríades ou power acordes + tríades. É um verdadeiro “saco” aquela barulhada de 12 cordas idênticas com o mesmo timbre – a menos que você esteja tocando Heavy Metal com Power Chords em oitavas diferentes ou Trash, Dark, Death qualquer. coisa do gênero – onde quanto mais barulho, melhor;
5.) Como já disse, os padrões são transportáveis para qualquer. lugar do braço – logo, se você montou uma tríade de A (Lá) e o próximo acorde é G (Sol), deslize seus dedos dois trastes para trás e – Voilá!!! não mexeu nenhum dedo e o novo acorde já está FEITO!!
6.) As relações de graus nas tríades são úteis também em solos – você deve estar cansado de ouvir e/ou tocar “double-stops” (pegadas c/ 2 notas de uma só vez). Elas são baseadas na relação das notas da tríade, em pares I – III, III – V ou I – V. Conhecendo as tríades, você pode enriquecer seus licks com double-stops facilmente;
7.) Ainda falando sobre solos, licks e riffs famosíssimos foram e são construídos utilizando-se somente tríades. Ouça “Sultans of Swing” (Dire Straits) ou “Hotel California” (Eagles) e perceba que introdução e solos são nada mais do que as tríades dos acordes das músicas com alguns “acessórios” básicos, como slides, bends, cromáticos, harmônicos... tudo simples e com um efeito sonoro agradabilíssimo – as duas composições são Clássicos!
Quer ver como nosso método está se encaixando? Se você REALMENTE já decorou os padrões de oitava, vai achar um BICO adicionar III e V graus – que também seguem os mesmos padrões de oitava. Tente! Você nunca imaginou que poderia fazer aquele A (lá maior) da sua primeira aula de violão em tantos lugares diferentes...
Você pode não estar acreditando nisto, mas acabamos de estabelecer uma coisa sensacional, a qual, após dominada, trará para você o mapeamento total do braço do instrumento, proporcionando facilidade no estudo de notas, escalas, acordes.... – TUDO o que for feito em cima do braço.
Vamos completar este assunto mais adiante, com as Tríades Menores, mais Formação de acordes em padrão Pestana e os utilizadíssimos Power Acordes (estes últimos num apanhado diferente, abordando várias formas e usos).
Baseado em:
Bill Quinn – www.harmonycentral.com
Roger Brotherhood – roger.brotherhood@njackn.uucp
Publicado no site “A Casa das Cifras” (http://www.casa.cifras.nom.br), em 09/10/1.999.

E aí, pessoal? Voltei... Vamos continuar bem de onde paramos – para completar o mapeamento do braço COM ALGUM SIGNIFICADO PRÁTICO – e não somente com a memorização de nota-por-nota no braço todo, OK?


6.2.3.) Tríades Menores

As tríades menores são tão importantes – e tão úteis – quanto as maiores. E têm uma grande vantagem: se você já conhece as Maiores, vai ser moleza dominar as menores. Lembra da formação das tríades Maiores? – Tônica, 3.ª maior, 5.ª perfeita. Veja agora como são formadas as tríades menores (assim como os acordes menores): Tônica – 3.ª menor – 5.ª perfeita. Notou qual a diferença? O 3.º grau é menor (ou seja, UM INTERVALO a menos que o maior). Isto quer dizer, na prática, que é só colocar o seu dedo do 3.º grau, na formação da tríade maior UMA CASA PARA TRÁS e... temos a tríade menor!!!!

Vamos dar uma olhadinha nos Padrões obtidos:

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|-5-|---|---|---|
D. |---|-3-|---|---|---|
G. |---|---|---|-1-|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


Esse aí embaixo é conhecido... não parece com Dm (Ré menor)?

e. |-3-|---|---|---|---|
B. |---|---|-1-|---|---|
D. |---|-5-|---|---|---|
G. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|

E. |---|---|---|---|---|

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|-1-|---|---|
D. |---|-5-|---|---|---|
G. |---|---|-3-|---|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|

e. |---|-5-|---|---|---|
B. |---|---|-3-|---|---|

D. |---|---|---|-1-|---|
G. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


E esse debaixo... é a “cara” do Am (Lá menor)?...

e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|-3-|---|---|
D. |---|---|---|-1-|---|
G. |---|---|---|-5-|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


e. |---|---|---|---|---|
B. |---|---|---|---|---|
D. |---|-1-|---|---|---|
G. |---|-5-|---|---|---|
A. |---|---|-3-|---|---|
E. |---|---|---|---|---|

e. |-1-|---|---|---|---|

B. |-5-|---|---|---|---|
D. |-3-|---|---|---|---|
G. |---|---|---|---|---|
A. |---|---|---|---|---|
E. |---|---|---|---|---|


É simples demais... Da mesma maneira que vimos como derivar as Tríades menores das Maiores (através do conhecimento de Graus e Formação de Acordes), podemos inserir outras Tríades, como as “sus” (substituindo a 3.ª pelo grau indicado – geralmente 2 ou 4) ou os “dim” (alterando a 5.ª perfeita para 5.ª diminuta – UM INTERVALO A MENOS = 1 casa para trás).
Veja alguns exemplos de transições utilizando tríades – toque somente as 3 cordas onde se encontram as notas. Note o mesmo acorde sendo tocado em mais de um lugar no braço, com inversões, e a simplicidade de movimentos da mão esquerda.

Quer mais? Tente transcrever (ou pelo menos tocar) a introdução de “Love of my Life” – Queen – gravada ao vivo; May usa um 12 cordas, mas você pode “debulhar” quase toda a introdução usando tríades e “bicordes” (acordes de 2 notas – é isso mesmo! Só 2 notinhas – é simples, se você conhece as tríades... tire um dos graus, e pronto; vale tirar até a tônica...afinal, os outros graus estão harmonizados, não é mesmo?).
Page também usa Tríades em “Starway to Heaven” – Led Zeppelin – ouça e tente identificá-las. Tente transformar sua versão de “Sultans of Swing” – Dire Straits – toda em tríades e veja como Mark Knopfler usa e abusa (até nos solos...) das tríades maiores e menores (além de pequenas variações de sus2 e sus4).

Baseado em:
Bill Quinn – www.harmonycentral.com
Roger Brotherhood – roger.brotherhood@njackn.uucp
Publicado no site “A Casa das Cifras” (http://www.casa.cifras.nom.br), em 22/10/1.999.

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